Sexta-feira, 22 de maio de 2026 - 14h05

A aprovação, pela
Câmara dos Deputados, do projeto que institui o Plano Nacional de Segurança
Viária para Fauna Silvestre reforçou a urgência de enfrentar uma das maiores
crises silenciosas da biodiversidade brasileira: o atropelamento de animais
silvestres em rodovias e ferrovias. A proposta, aprovada nesta semana e agora
encaminhada ao Senado, prevê ações de planejamento, monitoramento e implantação
de estruturas voltadas à travessia segura da fauna, além da criação de um
Cadastro Nacional de Acidentes com Animais Silvestres.
O Brasil enfrenta um
cenário alarmante. Estudos conduzidos pela bióloga Fernanda Abra, referência em
ecologia de estradas no país, indicam que centenas de milhões de animais podem
morrer anualmente em rodovias brasileiras, um impacto direto sobre a
biodiversidade e o equilíbrio dos ecossistemas.
Dados atualizados de
instituições como o Centro Brasileiro de Estudos em Ecologia de Estradas (CBEE)
apontam que cerca de 475 milhões de animais silvestres são atropelados todos os
anos no Brasil — o equivalente a aproximadamente 15 animais por segundo. Além
disso, informações do Grupo de Resgate de Animais em Desastres (GRAD) reforçam
a gravidade do cenário: quase 9 milhões de mamíferos de médio e grande porte
são vítimas de atropelamentos anualmente, representando uma perda superior a 10
mil toneladas de biomassa. Espécies como lobo-guará, tamanduá-bandeira e anta
estão entre as mais afetadas, justamente por apresentarem baixa taxa
reprodutiva e necessidade de grandes áreas para sobreviver.
O problema ganha
contornos ainda mais preocupantes no Mato Grosso do Sul, estado que abriga
parte do Pantanal — um dos biomas mais ricos do planeta — e que também
concentra importantes corredores rodoviários que atravessam áreas de alta
biodiversidade. Espécies como tamanduás, capivaras, jaguatiricas e até
onças-pardas estão entre as vítimas frequentes.
Apenas em um trecho da
BR-262, entre Campo Grande e o Pantanal, foram registrados milhares de animais
atropelados em poucos anos, evidenciando a gravidade regional do problema.
De acordo com os
estudos de Fernanda Abra, as estradas não apenas causam mortes diretas, mas
também fragmentam habitats, isolam populações e reduzem a diversidade genética
das espécies. A especialista aponta que o atropelamento de fauna é hoje uma das
principais causas de perda crônica de biodiversidade no país, agravada por
fatores como alta velocidade nas rodovias, falta de sinalização adequada e
planejamento insuficiente — pontos também destacados pelo GRAD como
determinantes para o aumento das colisões com animais silvestres.
O projeto aprovado pela
Câmara estabelece que os responsáveis pelas rodovias e ferrovias deverão
implementar medidas para reduzir atropelamentos em trechos críticos, incluindo
passagens de fauna aéreas e subterrâneas, cercas direcionadoras, pontes e
redutores de velocidade. O texto também prevê campanhas educativas e monitoramento
permanente das áreas de risco. A proposta segue agora para análise do Senado.
(camara.leg.br)
No Mato Grosso do Sul,
iniciativas pontuais já demonstram a urgência de ampliar soluções como
passagens de fauna subterrâneas, cercas direcionadoras e sinalização adequada.
Rodovias que cortam áreas próximas ao Pantanal e ao Cerrado registram índices
elevados de atropelamento, especialmente em períodos de seca e queimadas,
quando os animais se deslocam em busca de alimento e água.
Para o Instituto Líbio,
que atua na reabilitação de animais vítimas de tráfico, atropelamentos e outras
ameaças, o cenário exige ação coordenada entre poder público, concessionárias e
sociedade.
“É um sofrimento
evitável, que escancara a falta de planejamento ambiental nas nossas rodovias”,
afirma Raquel Machado, CEO do Instituto Líbio. “Quando um animal é atropelado,
não estamos perdendo apenas um indivíduo, mas comprometendo toda uma cadeia
ecológica. Precisamos tratar esse tema como prioridade nacional.”
Raquel também destaca
que a reabilitação é apenas a etapa final de um problema muito maior.
“Precisamos investir em prevenção — como passagens de fauna, cercamentos,
sinalização eficiente e educação dos motoristas. Sem isso, continuaremos
enxugando gelo.”
Especialistas reforçam
que o Brasil já possui conhecimento técnico e científico suficiente para
mitigar o problema. O desafio agora é transformar esse conhecimento em política
pública efetiva, com investimentos estruturais, planejamento ambiental e
fiscalização contínua.
De acordo com o GRAD,
existem diversas estratégias eficazes para reduzir o atropelamento de fauna
silvestre, desde que aplicadas com base em estudos técnicos específicos para
cada região. Entre as principais soluções estão a implementação de
infraestruturas voltadas à fauna, como passagens subterrâneas para pequenos e
médios animais, viadutos verdes que permitem a travessia de grandes mamíferos e
passagens aéreas destinadas a espécies arborícolas; o uso de tecnologia,
incluindo sensores, inteligência artificial e repelentes sonoros e olfativos
para alertar motoristas e afastar animais das rodovias; o fortalecimento de
legislação e políticas públicas, com destaque para instrumentos como o Código
Florestal e a criação de unidades de conservação, aliados a investimentos em
infraestrutura sustentável e parcerias com instituições de pesquisa; e, por
fim, ações de educação e conscientização, como campanhas para redução de
velocidade em áreas críticas e iniciativas participativas.
Enquanto isso, os
atropelamentos seguem invisíveis para grande parte da população — mas com
consequências profundas e, muitas vezes, irreversíveis para a biodiversidade
brasileira.
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