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Crônica

A imortalidade da janela criativa


A imortalidade da janela criativa - Gente de Opinião

A velhice e o saudosismo costumam trilhar os mesmos caminhos, comandando a máquina do tempo através de um clichê mental, em que só se engrena uma marcha: a ré! Solidão e recordação vão além da rima, é como se o passado alimentasse de prazer instantes de reflexão do presente, projetando um futuro pintado de esperança, no compasso da saudade.

Nos finais de tarde costumo postar-me diante do sol, com o Madeirão abaixo da linha do horizonte dos meus olhos, inevitável a transformação dos meus pés em pés de curupira. Tudo se volta nostalgicamente ao passado. E rio, e choro, e escrevo, e deixo marcas ao porvir...

Contudo, ao tentar expressar o passado a partir do presente, deparei-me com a visão de Nietsche, dizendo da impossibilidade de se determinar a extensão do presente, sabendo-se que não há sobras entre uma fração do tempo que passou e a expectativa do tempo que virá. Pirei! Filosoficamente racional, porém íntimo dos fantasmas poéticos que reinventaram o tempo e o humano, até aceitei a inexistência do presente, o vácuo intemporal que o filósofo rotulou de nada, a teoria do nada, mas, em contrapartida, agasalhei no íntimo uma dimensão estática de vasto repertório, alheia ao tempo, como se a manifestação material do espirito, que alimenta a poiesis, que para a transitoriedade, que gera a arte.

O momento da criação artística está protegido num bunker poético sem janelas visíveis, um portal da palavra sentida. Pouco importa se o start criativo se alimenta de passado, presente, ou futuro, está isento de ingerências filosóficas ou científicas temporais.

Quando eu ultrapasso a janela fortificada invisível, recebo o halo que determina o ponto de partida das ações artísticas: daqui eu volto, daqui eu sou, daqui eu vou, mesmo sabendo que a mandala existencial não é um círculo: sou, vou, mas não voltarei, não me iludo com o pós, ele não passa de um prefixo vaidoso, fugitivo da hermenêutica epistemológica bíblica, que elevou pó ao plural, querendo ultrapassar os limites da ontologia. Invenção do pavor humano ao pós mortem! ...

A intemporalidade da arte ultrapassa todas as barreiras, transpõe a realidade alternativa, viaja fora do tempo e nos eleva a um estado acadêmico mítico imortal, onde passado e futuro se mesclam ao transcendente, formatando uma estética diferenciada, percebida no horizonte da janela do prazer criativo, vista só decodificada pelos amantes das artes literárias.

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