Porto Velho (RO) terça-feira, 16 de junho de 2026
opsfasdfas
×
Gente de Opinião

Crônica

A janela dos setenta


William Haverly Martins - Gente de Opinião
William Haverly Martins

Aos setenta, a janela da vida perde o tamanho e o formato, e se posiciona num espaço entre brumas, que camuflam a vista. Quase sempre, só se vê a vista se o olhar estiver em sentido contrário, voltado para dentro. Na janela invertida dos setenta vê-se o que já passou, as vistas aparecem em forma de memórias.

Não! Não se trata de cegueira gradativa, apesar da catarata existencial, um bisturi a laser e uma nova lente poderão restituir a limpidez das imagens, mas serão imagens viciadas, que não possuem o mesmo valor sentimental das lembranças estacionadas no córtex cerebral.

A inversão não é culpa de ninguém, quando já se trilhou a maior parte da estrada da vida, é normal que se olhe mais constantemente para trás, é lá que estão as cores da infância, o vigor da juventude e os sonhos da maturidade: raízes progressivas e orientadoras da caminhada.

O passado também é a morada de muitos amigos, foram eles que amainaram a travessia. Muitos ficaram às margens, em terras distantes, alguns te viraram as costas, não eram amigos, outros se foram para sempre, sequer tiveram tempo para despedidas. Se ainda te restaram alguns, cuida bem da espécie, pois são a essência do bem, a melhor vista antes de fecharmos as janelas da última morada.

A janela da atualidade, aos setenta, projeta vistas, através de esperanças cansadas, perigosas, que podem levar o homem à loucura. É preciso ocupar o cérebro, que não controla as dores da gota, a expectativa de um infarto fulminante, o temor de um câncer prostático broxante. É preciso vigiar os sonhos, acordado, para que eles, em não se realizando, não te desesperem.

Apesar dos setenta, o tempo e a esperança necessitam ser administrados com vigor produtivo e esforço pessoal, para que, ao serem filtrados pela janela da existência, produzam vistas gratificantes.   

Gente de OpiniãoTerça-feira, 16 de junho de 2026 | Porto Velho (RO)

VOCÊ PODE GOSTAR

A ambição humana

A ambição humana

Recentemente houve no nosso País, campanha eleitoral; não foi muito diferente, das realizadas em nações democratas e civilizados.Alguns candidatos e

Um poema que me comoveu

Um poema que me comoveu

Acabo de ler o: " Poema do Tio-avô Materno" de António Gedião, que muito me comoveu. Não pela inefável beleza, escrito por mão de Mestre, mas pelo s

Cada terra com seu uso

Cada terra com seu uso

Estando no Brasil numa cervejaria, a conversar com amigos, escutei entre pareceres desfavoráveis ao nosso país – que era comum antes do euro circula

Dois socialistas corretos

Dois socialistas corretos

Os partidos políticos encontram-se abertos a todos; assim como clubes ou associações culturais.A entrada é simples: basta ser proposto; o que não é

Gente de Opinião Terça-feira, 16 de junho de 2026 | Porto Velho (RO)