Sexta-feira, 29 de julho de 2022 - 17h14

Aos
setenta, a janela da vida perde o tamanho e o formato, e se posiciona num
espaço entre brumas, que camuflam a vista. Quase sempre, só se vê a vista se o
olhar estiver em sentido contrário, voltado para dentro. Na janela invertida
dos setenta vê-se o que já passou, as vistas aparecem em forma de memórias.
Não!
Não se trata de cegueira gradativa, apesar da catarata existencial, um bisturi
a laser e uma nova lente poderão restituir a limpidez das imagens, mas serão
imagens viciadas, que não possuem o mesmo valor sentimental das lembranças
estacionadas no córtex cerebral.
A
inversão não é culpa de ninguém, quando já se trilhou a maior parte da estrada
da vida, é normal que se olhe mais constantemente para trás, é lá que estão as
cores da infância, o vigor da juventude e os sonhos da maturidade: raízes
progressivas e orientadoras da caminhada.
O
passado também é a morada de muitos amigos, foram eles que amainaram a
travessia. Muitos ficaram às margens, em terras distantes, alguns te viraram as
costas, não eram amigos, outros se foram para sempre, sequer tiveram tempo para
despedidas. Se ainda te restaram alguns, cuida bem da espécie, pois são a
essência do bem, a melhor vista antes de fecharmos as janelas da última morada.
A
janela da atualidade, aos setenta, projeta vistas, através de esperanças
cansadas, perigosas, que podem levar o homem à loucura. É preciso ocupar o
cérebro, que não controla as dores da gota, a expectativa de um infarto fulminante,
o temor de um câncer prostático broxante. É preciso vigiar os sonhos, acordado,
para que eles, em não se realizando, não te desesperem.
Apesar
dos setenta, o tempo e a esperança necessitam ser administrados com vigor
produtivo e esforço pessoal, para que, ao serem filtrados pela janela da
existência, produzam vistas gratificantes.
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