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Crônica

Uma vela na janela


Uma vela na janela - Gente de Opinião

Faltou energia elétrica, acendi uma vela e coloquei na janela, perdido em metáforas, fiquei meditando com os olhos fixos no tremular das chamas, aí me veio uma frase: as chamas do poder. Naquele instante de chamas incertas, sujeitas às tremulações da vida, lembrei que uma vela bri­lha porque morre a cada instante de lucidez, a cada ins­tante de indicar o caminho, a cada instante de doação, a cada instante de competência.

Muitos incompetentes, por não terem brilho próprio, procuram a luz alheia para iluminar seu caminho, mas tropeçam na própria sombra. A cera da competência, do amor incondicional ao outro, não é feita de vaidade, nem da energia dos desvali­dos, tampouco do sebo da humilhação, por isso dura mais, brilha mais. As mariposas da vida ou as da política partidária de má qualidade acabam queimando as asas no clarão da vela dos competentes.

A mestra História está recheada de exemplos, quem não se lembra de Cleópatra, de Maria Antonieta, dos césa­res, dos luíses, dos czares, de Jânio, Collor, Lula e tan­tos outros déspotas e políticos malucos que se esquece­ram da efemeridade do poder, que acharam que a luz da vela duraria para sempre, independente das tempestades sociais e da corrupção galopante.

O poder, escurecido pelo mais grave dos pecados capitais – a vaidade − embriaga os sentidos, confunde a mente, embaralha as decisões, consequentemente, empo­brece a cera da vela, queima mais rápido.

Para gente e políticos deste naipe, existem velas dos mais variados formatos, de cores vivas ou mortas, mas a grande maioria pertence ao rol das velas brancas e indecisas, comuns aos funerais, aquelas acendidas em torno do próprio caixão, sabendo que o vento do dia a dia logo mais as apagará.

Um vento forte passou pela minha janela, apagando a chama que alimentava minhas metáforas e comparações, o horizonte escureceu, como breu. Estou à deriva, na expectativa de novas, fortes e duradouras chamas da vida. Que a espera não seja longa.

Estou cansado dos amigos traíras, dos políticos demagogos, dos ladrões de textos, dos pseudoautores, mudos, desprovidos de luz, nem os vagalumes suportam a comparação.

A escuridão da madrugada foi cedendo vistas a minha janela, no oriente apareceu um bico de luz, clareando aos poucos, como uma vela divina, cuja cera se renova e se eterniza, banalizando a luz das velas comuns, reescrevendo o perdão, reiterando a metáfora da esperança. 

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