Sexta-feira, 27 de outubro de 2023 - 14h59

O
vídeo que
o senador Plínio Valério –
PSDB/AM fez circular nas redes sociais em veemente protesto em favor da
recuperação da BR-319 – Porto Velho – Manaus – aborda o problema por uma ótica
e metafísica muito particulares. Sua argumentação apenas tangencia a questão,
excluída a evidente preocupação em atacar o governo e prestar vassalagem ao
eleitorado bolsonarista, com os ataques de sempre aos imaginados interesses do
capital internacional.
Dinheiro
para
asfaltamento do chamado trecho do
meio da rodovia é problema apenas secundário. O nó górdio está, paradoxalmente,
na questão ambiental. A mesma combinação climática que seca os rios amazônicos
e recoloca a BR-319 na pauta é o principal argumento dos ambientalistas
contrários à execução da obra. O cerceamento do direito de ir e vir da
população amazônica perde magnitude quando confrontado com os efeitos
devastadores da estiagem, que afetam o país e o mundo. Atribuída a “El Nino”,
que eleva a temperatura das águas do Pacífico, e ao aquecimento anormal do Atlântico, a estiagem pode secar os rios
voadores amazônicos e comprometer o agronegócio.
Por
isso as
obras da BR-319, que ficaram fora do PAC, voltaram à ordem do dia. Mas porque a
estrada não foi contemplada? O que aconteceu, segundo observadores de Brasília,
foi um recuo estratégico do governo. A inclusão da rodovia abriria uma nova
frente de discussão com os ambientalistas, já em pé de guerra com o governo
Lula em função da tentativa de exploração de petróleo na chamada “Foz do
Amazonas”. E não havia certeza de que um eventual novo enfrentamento pudesse
resultar na liberação do trecho para as obras, pois que a discussão da tal
“estrada parque”, em que seria transformada a rodovia, ainda se arrasta junto
ao Ibama. Da mesma forma que inúmeras outras exigências ligadas à compensação
ambiental.
Há
um tanto de
exagero, portanto, nas críticas ao imobilismo da representação parlamentar
federal rondoniense. E não é porque, à exceção de Confúcio Moura, todos
creditam sua eleição à maré bolsonarista e temem a rejeição do eleitorado a
qualquer leitura equivocada dos protocolos. A composição do Congresso mostra
claramente que não foi um fenômeno local. E Lula tem sido obrigado a investir
pesadamente nas iscas para pescar nessas águas, sob pena de não governar.
O
verdadeiro malabarismo a que o governo – qualquer que seja
ele, desde que não sujeite o país à condição de pária internacional - é
obrigado a desenvolver está na questão petrolífera da Foz do Amazonas. Trata-se
da província da Margem Equatorial - distante
500 km da verdadeira foz do rio - região situada no litoral entre os estados do
Amapá e Rio Grande do Norte. Próxima à Linha do Equador, a área se estende por
mais de 2.200 km ao longo da costa. Já chamada de novo pré-sal, a região envolve
reservas de 30 bilhões de barris e investimentos iniciais estimados em quase
USD 3 bilhões.
O
que diabos teria isso, afinal, a ver com a rodovia?
Geograficamente nada, claro! Mas, politicamente, tem tudo a ver. Basta observar
o esforço para acalmar os ânimos – e não é apenas no Brasil – dos
ambientalistas contrários à pesquisa e exploração dos novos campos
petrolíferos. O Brasil precisa desse petróleo, até porque o pré-sal emite
sinais de exaustão. A economia dos hidrocarbonetos vai acabar um dia, mas esse
dia está longe. A decisão a favor da província exige, contudo, cautela. Muita
cautela, sob pena de comprometer a imagem ambiental brasileira no exterior, que
a muito custo vem sendo recuperada.
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