Segunda-feira, 30 de junho de 2025 - 13h45

Tenho
por hábito não
reproduzir textos. Nem citações longas. Nada contra quem publica, como da
própria autoria, textos alheios, com mudança do título para incorporar a
própria opinião. E para, não raro, contrariar o teor do texto original. É que
peculário desprezo pelo título incorpora a impaciência com a leitura, limitada
às primeiras linhas, talvez o primeiro parágrafo do material copiado,
obviamente sem citação da fonte.
Pessoalmente, evito a reprodução, mesmo do
trabalho genial de inúmeros jornalistas, articulistas e autores, ainda que com
a citação da autoria. Não por orgulho ou arrogância, mas para evitar uma certa
dose de vergonha pela apropriação indébita. Por Vezes, porém, a genialidade
criativa impõe a reprodução do trabalho, como é o caso do texto seguinte, publicado
em 2020 pelo arquiteto, escritor e colunista do jornal "O Globo”, Eduardo
Affonso, cuja leitura recomendo.
“Há
dois tipos de
palavras: as proparoxítonas e o resto.
As
proparoxítonas são o ápice da cadeia alimentar do léxico.
Estão
para as outras palavras assim como os mamíferos para os artrópodes.
As
palavras mais pernósticas são sempre proparoxítonas. Das mais lânguidas às mais
lúgubres. Das anônimas às célebres. Se o idioma fosse um
espetáculo, permaneceriam longe do público, fingindo que fogem dos fotógrafos e
se achando o máximo. Para pronunciá-las, há que ter ânimo, falar com
ímpeto - e, despóticas, ainda exigem acento na sílaba tônica!
Sob
qualquer ângulo, a
proparoxítona tem mais crédito.
É
inequívoca a diferença entre o arruaceiro e o vândalo.
O
inclinado e o íngreme.
O
irregular e o áspero.
O grosso
e o ríspido.
O brejo e
o pântano.
O quieto
e o tímido.
Uma
coisa é estar na
ponta – outra, no vértice.
Uma coisa
é estar no topo – outra, no ápice.
Uma coisa
é ser fedido – outra é ser fétido.
É fácil
ser valente, mas é árduo ser intrépido.
Ser
artesão não é
nada, perto de ser artífice.
Legal ser
eleito Papa, mas bom mesmo é ser Pontífice.
(Este
último parágrafo contém algo raríssimo: proparoxítonas que rimam. Porque elas
se acham únicas, exóticas, esdrúxulas. As figuras mais antipáticas da
gramática.)
Quer
causar um
impacto insólito? Elogie com proparoxítonas.
É como se
o elogio tivesse mais mérito, tocasse no mais íntimo.
O sujeito
pode ser bom, competente, talentoso, inventivo – mas não há nada como ser
considerado ótimo, magnífico, esplêndido. Da mesma forma, errar é humano.
Épico mesmo é cometer um equívoco.
Escapar
sem maiores traumas é escapar ileso – tem que ter classe pra escapar incólume.
O
que você
não conhece é só desconhecido.
O que
você não tem a mínima ideia do que seja – aí já é uma incógnita.
Ao centro
qualquer um chega – poucos chegam ao âmago.
O desejo
de ser uma proparoxítona é tão atávico que mesmo os vocábulos mais básicos têm
o privilégio (efêmero) de pertencer a esse círculo do vernáculo – e são
chamados de oxítonos e paroxítonos. Não é o cúmulo?
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