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Paulo Saldanha

Crônicas Guajaramirenses - A Lenda do Machiquerou


Paulo Cordeiro Saldanha - Gente de Opinião
Paulo Cordeiro Saldanha

Meu amigo de longa data, o José Maria dos Santos, líder e ativista dos interesses dos povos da floresta, um dos poucos leitores que possuo, admirador do capitão Alípio, sem que eu esperasse questionou-me se eu conhecia a história do Machiquerou.

                   –Zé, devolvi, que personagem será esse?

                   –É um bicho estranho, vive nos confins dos rios, principalmente aonde tem muita pedra em seus leitos, temido pelos índios e beradeiros, com ambiência no rio Pacaas Novos...

         O Zé Maria tem vivências e muitas histórias para contar e escrever. Homem íntegro tem uma legião de amigos, muitos deles ajudou a crescer e a elevar como seres humanos, à imagem e semelhança de Deus, Pai e Criador.

         Nesta Amazônia única e deslumbrante há mistérios tais, que não conhece a nossa vã filosofia...

         Por conta então das lendas, há uma infinidade de entidades que permeiam o imaginário dos povos das matas, com reflexo naqueles urbanos das pequenas localidades. E eis que pontifica nesse meio o mapinguary, a mula-sem-cabeça, o vira-porco, o caipora, etc, etc.

         E eu, amazônida da gema, assim como o José Maria dos Santos reconhecemos que, no seu ventre, esta região tem segredos e singularidades que despertam questionamentos e a atenção de cientistas e curiosos.

         Falta decifrar, por exemplo, o porquê de os indígenas (e outros nativos) terem olhos amendoados, a exemplo dos esquimós, chineses e japoneses! E me sobrevém a teoria do estreito de Bering, que permitiu a vinda de asiáticos, fugindo do frio mais que intenso, quando lagos e mares ficaram congelados, facilitando a passagem humana por aquele espaço marítimo.

         Como interpretar que aqui no rio Pacaás Novos tenha o idioma Xapacura, cujas palavras possuem raízes esquimós (?).

         Todavia, convém retornar a esse meu companheiro de fisioterapia, que me induziu a desvendar um enigma vivenciado lá no alto rio Pacaás Novos, no seringal São Luiz, na época pertencente ao Manoel Lucindo da Silva.

         Revelação que me faltou competência para decodificar...

Poder-se-ia, ante a brutalidade com que agia, dizer que se trata de uma fera, com habitat às margens dos rios, notadamente próximo de poços fundos, tendo como característica o fato de soltar labaredas de fogo, chamas essas que queimam pessoas, coisas e árvores, daí o pavor que se instala (instalava) nas comunidades dos povos da floresta, quando os circunstantes sentiam a sua presença.

Há, inclusive, uma narrativa de que, durante um trágico encontro este matou um índio e deixou outro com parte do corpo bem queimado.

O índio sobrevivente chama-se Iri, que vive na aldeia São Luiz, quase na nascente do rio Pacaás Novos, na Serra do Tracoá.

Há um relato dando conta de que esse animal tem a aparência de uma ariranha enorme, grande e agressiva.

Numa enchente fora de época teria sido a última vez que o machiquerou fora visto. Acredita-se que com essa cheia, uma verdadeira inundação, uma alagação quase tão grande quanto a de 2014, ele evaporou, sumiu, desapareceu...

Como o personagem animalesco ficou famoso, um seringalista do entorno homenageou-o com o nome da sua embarcação.

Essa história mereceu a chancela do proprietário do seringal, até onde sei, senhor Manoel Lucindo da Silva, confirmado pelo índio Irí.

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