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Paulo Saldanha

Crônicas Guajaramirenses - As águas negras e as águas barrentas


Crônicas Guajaramirenses - As águas negras e as águas barrentas - Gente de Opinião

Sempre me comovo ao observar o encontro das águas, que, no caso rondoniense, são os beijos gelados entre os rios Guaporé e Mamoré e deste com o rio Pacaás Novos, aqui de mim tão próximo.

E essas estradas líquidas, que não se misturam, por muitos metros caminham conversando como dois bons amigos, um contando anedotas para o outro, e esse um, desejando um papo mais cabeça, vai descendo sério na sua “caudalosidade” em direção a sua finitude, misturando-se a outras águas, como as do Beni, inclusive as do Amazonas, no rumo do Atlântico.

Esse cenário acrescentado pelos botos cor de rosa e tucuxi vai encantando e inebriando as pessoas sensíveis, em nome da natureza sempre tão pródiga e comovente!

Vira exuberante atração turística!

E naquele diálogo em que os rios, enquanto desfilam majestosamente na passarela líquida da imensidão amazônica, sem se engalfinharem, sem se misturarem, tem na diferença de composição, temperatura de suas águas e densidade a razão de caminharem lado a lado, perdoando-se mutuamente nos seus contrastes, sem brigas, agressões e sem vilipêndios.

Seriam exemplos de maturidade para nós, humanos!...

Há quem diga que os rios Mamoré e Guaporé teriam sido visitados ainda nos idos dos anos 1500, quarenta anos depois da descoberta do Brasil pelos portugueses, posto que entre 1541 e 1542 o espanhol Nuflo de Chávez alcançou esses dois rios.

Porém há registros dando conta de que, ainda no século XVII, o bandeirante Antônio Raposo Tavares, entre 1648 e 1651, numa viagem épica desde São Paulo, transitou pelo rio Paraná, navegou pelo rio Paraguai e correndo riscos com as onças, sucuris, cascavéis e índios revoltados, a exemplo dos Nhambiquaras, chegou e desceu o rio Guaporé, passando pelo encontro do Pacaás Novos com o Mamoré, venceu as dezoito cachoeiras entre dois pontos que, um dia, se chamariam Guajará-Mirim e Porto Velho, e enfim chegou a Belém do Pará.

          Agora, no instante em que me permito, embora leigo, transitar pelas atividades dos geógrafos, geólogos, hidrogeólogos e/ou hidrógrafos e, numa avaliação in locco quando vi a “tal nascente” do rio Madeira e, com a percepção de que no estuário dos rios Beni e Mamoré, ter observado que ao Mamoré caberia o domínio naquele cenário... acabei sonhando com a falácia de que o rio madeira bem que poderia ser a continuidade do rio Mamoré. Ledo Ivo (perdão!) Ledo engano!     

          E cheguei a imaginar que, na época da decisão histórica de se dar nome ao rio Madeira o Madre de Dios/Beni era bem mais conhecido que o Mamoré. E aí inventaram um novo nome para uma via que bem que poderia seguir com o nome original: MAMORÉ.

          Ocorre que, a verdade por mim sonhada, jamais se concretizaria posto o rio Madeira ser formado pela bacia do Madre de Dios/Beni, de quem o Madeirão guarda as características morfológicas e hidrológicas.

Mas, voltemos aos rios de águas barrentas para dizer que nessa trajetória trazem nutrientes que Deus, seus arcanjos, anjos, querubins e serafins disponibilizam na geração de mais vida, mais alimento para os viventes moradores dos leitos aquáticos.

E esse Mamoré que tanto amo e venero tem seus lundus (Amuo, zanga; calundu). É que entre abril e setembro, em protesto contra o frio que vem do Sul, responde com aspereza, cria banzeiros e oladas, que afundam embarcaçõies, notadamente nos seus encontros com outros rios destas terras lindeiras.

O rio Beni, que nasce soberano nos Andes da Bolívia, percorrerá cerca de 3315 km até desaguar no Amazonas com o nome de Madeira, sendo 1599 com a denominação de Beni, transformando-se no 17º maior do mundo em extensão.

Todavia, em função das minhas afinidades com o rio fronteiriço, o Mamoré, numa visão leiga, lanço o meu olhar do como eu gostaria de ver admitida a idéia de que o Madeira seria a  extensão do rio Mamoré e não do Madre de Dios/Beni.

Como eu gostaria de recolher a afirmação de que, se fosse (mas não é) a verdade geográfica mais perfeita, em extensão, o Mamoré/Madeira, seria UM a continuidade do OUTRO e não o prosseguimento do Beni! E, nesse meu sonho sonhado, um veeemente desejo insano, o Mamoré/Madeira com seus 3546 Km de comprimento continuaria situando-se como o 17º maior do planeta.

E o quarto entre os maiores rios brasileiros.

Mas, para consolo das criaturas racionais, reconheço que a verdade técnica se traduz como o rio Madeira sendo a continuidade dos rios Madre de Dios/Beni.

Até prova em contrário!...

* O conteúdo opinativo acima é de inteira responsabilidade do colaborador e titular desta coluna. O Portal Gente de Opinião não tem responsabilidade legal pela "OPINIÃO", que é exclusiva do autor.

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