Terça-feira, 25 de julho de 2017 - 00h02
Nunca se soube ao certo o nome do Gaguinho. Era peruano, e gaguejava tanto em castelhano quanto em português. No ‘portunhol’, nem se fala! Se autointitulava pintor de paredes, forros e rodapés. Pintor dos ruins, posto que, como gaguejava, acabava deixando de pintar a parede na sua integralidade...
Na frente da casa, fazendo uso da publicidade e propaganda para a maior divulgação dos seus serviços, tinha uma tabuleta assim: PIN PIN PINTOR .
Aportou aqui em Guajará-Mirim em fins dos anos 50 e se defendia fazendo o serviço com ausência de talento. Mas, sagaz no raciocínio, adquiriu um terreno ali próximo da sede da antiga Guarda Territorial, hoje Mercado Municipal, e foi construindo uma casa com a renda que ia auferindo. Até que pôde nesse local implantar um bar de discutível conceito e aparência. Daí aumentou a obra em dois quartos que serviam como “matadouro”, e os alugava para que amores pudessem acontecer num tempero escondidinho. Não chegara ainda o tempo dos motéis, e a energia ia embora às 22 horas. Então, havia velas nos dois quartos... Ingredientes para a higiene, nem pensar!
Vendia cervejas, conhaque, guaraná regional, cachaça, e cobrava preços astronômicos; no entanto, já possuía uma clientela fiel e não “reclamona”.
E numa certa noite enluarada foi descoberto que o Gaguinho tinha um vício, um distúrbio: pela fresta da parede costumava observar os amantes em posições e situações tão íntimas que poderia constrangê-los se fossem surpreendidos. Seria ele um praticante do voyeurismo, para me valer de uma palavra mais atual? Naquela época seria um tarado mesmo!
E a autora da descoberta foi a sacrossanta e pudica esposa do Gaguinho, que, insatisfeita, não o via mais comparecer com as suas obrigações maritais. Fazendo-se de sonolenta, viu quando o Gaguinho saiu da cama para atender um notívago amado e amante, este já bem ébrio. O Gaguinho deu-lhe a chave do quarto, porém não retornava à cama.
Arguta, ela se encaminhou para fora do quarto aconchegante da casa em que nunca foi feliz; e, espreitando-se, chegou a uma das janelas do quarto onde os amantes se davam e entravam em frenesi. Ali fora, acocorado, o Gaguinho mexia nas suas partes íntimas, inspirando a sua fantasia no que conseguia enxergar e admirar lá dentro do quarto incandescido pela luz da vela, mediante o quadro que despertava sua lascívia, a partir da entrega do homem e da mulher.
Revoltada porque se sentia repudiada, a esposa reingressou no seu quarto, municiou-se com o urinol com vasilhame já carcomido pelo tempo e cujo casco continha um líquido vertido há uns quinze minutos, voltou ao local onde estava o Gaguinho... e deu-lhe uma “penicada” na cabeça, fazendo um barulho infernal, no exato instante em que este atingia o êxtase monocraticamente, externando um som estranhíssimo.
O casal de amantes, surpreendido com a pancada ouvida e com os gritos, abriu a janela, ainda nus, e viram a cena horripilante. Gaguinho, com a cabeça ensangüentada, desmaiara, e a mulher enfurecida lhe indicava a porta da rua sem que ele demonstrasse qualquer reação. Foi uma batida das fortes na cabeça do marido, e um cheiro de urina adornava o cabelo do pintor.
Os amantes, após vestirem-se, saíram de fininho, deixando o dinheiro numa mesinha improvisada e, pegando a lambreta de que se valeram para chegar ao solar dos encontros sigilosos, abandonaram o local da quase tragédia.
E o rapaz, segurando o riso e sem informar o nome da moça que o acompanhara, espalhou a notícia no antigo Mercado Público, na confluência das Avenidas Presidente Dutra com a Leopoldo de Matos, em frente do bar do Manuel Manussakis.
Daí em diante o Gaguinho pegou outro rumo e nunca mais foi visto na cidade. Mas a mulher dele, já escanchada noutro amor - agora um pedreiro -, continuou alugando os dois quartos em que encontros clandestinos ocorriam. Sem que ela, pelo menos assim se pensava, fosse dar uma de voyeurista de plantão...
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