Porto Velho (RO) terça-feira, 16 de junho de 2026
opsfasdfas
×
Gente de Opinião

Paulo Saldanha

Tempo – uma inafastável e cruel constatação



Como todos os meninos de qualquer época, eu tive oito anos e não me preocupava com o futuro! Ante essa despreocupação, ainda sonolento, todas as manhãs de 1954 eu ia ao Colégio Nossa Senhora do Calvário e dele voltava; e na visão da criança que existia em mim, cursando o primário, durante o período escolar era como se eu passasse 30 anos naquele vai-e-vem.

É que o tempo se passava na dimensão e no compasso da queda da chuva fina e fria...

Como todos os adolescentes, por sinal, já um tanto ansioso aos 15 anos (fase do meu amadurecimento mais intenso, pela perda da minha mãe), eu já me preocupava com o futuro, porém ainda não tinha a noção exata de todas as responsabilidades que chegariam, até porque o tempo demorava a passar e os dias substituíam as minhas quase bem dormidas noites, numa lentidão que me enervava.

Como todos os jovens, caminhando para a maturidade, conseqüência natural na trajetória dos humanos, eis que passei a me descobrir mais questionador; porém o tempo inabalável continuava marchando num ritmo lento, a despeito do meu interesse pessoal em desejar acelerá-lo.

E como todos os adultos em busca do equilíbrio e sensatez, já com 33 anos, fui desejando dar corda no relógio do tempo, o qual insistia em caminhar devagar; e, de soslaio, sentia que a torcida constituída pelos homens e mulheres da minha geração também desejava apressar os passos desse “sujeito com tantos predicados”.

Aos poucos fui assimilando através dos meus sentidos que o tempo parecia querer enganar-me...  Péssimo aluno de física e de matemática que fui, um dia li que o tempo é, na visão do Albert Einstein, “...uma ilusão. A distinção entre o passado, presente e futuro não passa de uma firme e persistente ilusão...”

Será?

E os cinquenta anos me surpreenderam “tão distraído que, assustado, eu disse não!” Pois me vi envelhecendo, saudoso dos meus tempos de criança.

E a maturidade dos sessenta chegou de mansinho e “me pegou tão desarmado, arranhando o meu coração”, mas me tocou profundamente, posto ter começado, então, a rever alguns conceitos; e pude ver a única vantagem palpável que eu recebia ao ingressar na terceira idade: passei a ter prioridade nas filas das lotéricas e dos bancos, assim como nos assentos destinados àqueles da minha faixa etária nos ônibus... Embora enganado pelo INSS e pela previdência privada, aos quais, ao longo de mais de 30 anos, paguei contribuições elevadas sob o argumento de que me aposentariam com condições de ter uma velhice digna. Ledo engano!

E os setenta chegaram sem pedir licença, como quem chega do nada; e de forma contundente me colheram com a passagem de um filho muito querido, modificando o meu pensar de antanho (palavra antiga), pois passei a solicitar encarecidamente ao tempo para que ele não corresse tanto, pois adoro a vida e quero curtir mais meus amigos, a família, meus filhos e netos.

E concluí que preciso de tempo! Assim, dando novo sentido à minha existência, optei por pedir calma ao tempo, haja vista a constatação pela vertente da sabedoria de que correr muito pode resultar em imprudência, ensejando anotações na carteira, multas e outras penalidades...

 

Conta e Tempo

Frei António das Chagas

Deus pede estrita conta de meu tempo.
E eu vou do meu tempo, dar-lhe conta.
Mas, como dar, sem tempo, tanta conta
Eu, que gastei, sem conta, tanto tempo?

Para dar minha conta feita a tempo,
O tempo me foi dado, e não fiz conta,
Não quis, sobrando tempo, fazer conta,
Hoje, quero acertar conta, e não há tempo.

Oh, vós, que tendes tempo sem ter conta,
Não gasteis vosso tempo em passatempo.
Cuidai, enquanto é tempo, em vossa conta!

Pois, aqueles que, sem conta, gastam tempo,
Quando o tempo chegar, de prestar conta
Chorarão, como eu, o não ter tempo...

 

* O conteúdo opinativo acima é de inteira responsabilidade do colaborador e titular desta coluna. O Portal Gente de Opinião não tem responsabilidade legal pela "OPINIÃO", que é exclusiva do autor.

Gente de OpiniãoTerça-feira, 16 de junho de 2026 | Porto Velho (RO)

VOCÊ PODE GOSTAR

Crônicas Guajaramirenses - tive amigos que se foram! Muitos, mais novos, outros, eram mais velhos que eu...

Crônicas Guajaramirenses - tive amigos que se foram! Muitos, mais novos, outros, eram mais velhos que eu...

            Nas voltas que a vida dá, sempre meus amigos eram bem mais velhos que eu, posto que, por exemplo, com 18 anos, meus companheiros tinham,

CRÔNICAS GUAJARAMIRENSES - Jorge Teixeira, um Nome, Uma Lenda, Uma Legenda

CRÔNICAS GUAJARAMIRENSES - Jorge Teixeira, um Nome, Uma Lenda, Uma Legenda

        Hoje, dia primeiro de junho, qual Sinuhe, personagem de Mika Waltari, autor de “O Egípcio”, escrevo daqui, quase do barranco do rio Mamoré,

Os 100 anos da igrejinha

Os 100 anos da igrejinha

         Estive presente na celebração dos 100 anos da Igrejinha Nossa Senhora do Perpétuo Socorro. E me comovi por diversas vezes na Santa Missa co

História e Ficção: Paulo Saldanha lança em Porto Velho seu livro “Entre Brancos e Originários – A Ferrovia de Deus”

História e Ficção: Paulo Saldanha lança em Porto Velho seu livro “Entre Brancos e Originários – A Ferrovia de Deus”

O escritor Paulo Cordeiro Saldanha lança em Porto Velho o livro “Entre Brancos e Originários – A Ferrovia de Deus”. O evento será realizado na próxi

Gente de Opinião Terça-feira, 16 de junho de 2026 | Porto Velho (RO)