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Cai N’Água: Uma História de Amor Não Correspondido


Cai N’Água: Uma História de Amor Não Correspondido - Gente de Opinião

O Cai N’Água continua sendo cantado pela boemia como se fosse um altar romântico da vida ribeirinha. Mas basta chegar perto para perceber que o encanto acaba onde começa a lama. Porto Velho é provavelmente a única cidade do planeta banhada por um rio gigantesco que simplesmente o ignora.

Enquanto outras cidades tratam suas orlas como a sacada de uma casa — um espaço de orgulho, história e convivência — aqui a orla se tornou um quintal esquecido, onde se joga tudo o que não se quer. A cada novo prefeito que surge, cresce a desolação, o desrespeito e o abandono, todos ignorando o caos que agora está tão próximo.

Novidades por lá são remotas. A primeira grande foi o frigorífico de peixe, que passou de um marco de modernização e necessidade para o abandono e sujeira, como se fosse um monumento ao fracasso. Depois veio o mercado, bonito na planta, bonito na estrutura, mas tomado pela imundície na prática — e isso com restaurantes em sua volta, como se higiene fosse um detalhe opcional.

Surgiu o píer de ferro do DNIT como um presságio de grandeza — estrutura fria e sólida que, por um breve instante, fez acreditar que o porto finalmente receberia com dignidade as embarcações, as gentes e as riquezas que navegam em sua direção. Mas a esperança tem vida curta onde a negligência governa. O píer foi arrancado do lugar como quem remove um adereço inconveniente, sumindo para destino ignoto, levado por mãos que tratam o bem público como mercadoria de armazém — disponível hoje, desaparecido amanhã, sem explicação, sem prestação de contas, sem vergonha.

Enquanto isso, o Cai N'Água segue em sua glória imemorial de lama, rampas toscas e esgoto que deságua no Madeira com a desenvoltura de quem paga seus impostos — um charme rústico que nenhum gestor público teve a crueldade de interromper. Afinal, por que urbanizar se pode ser feio? Por que sanear o que pode ser tolerado? Por que dignificar o que já foi tão bem abandonado?

O poder público, esse ser mitológico de aparição sazonal, só se materializa por ali em épocas específicas — geralmente quando o calendário eleitoral aponta para o horizonte e o palanque precisa de cenário. Chega com o sorriso bem ensaiado, o TikTok na mão e as promessas cuidadosamente recicladas, reluzentes como lata amassada pintada de dourado: as mesmas palavras de quatro anos atrás, ressuscitadas com nova entonação e faixa diferente no peito.

E o lugar, paciente como quem já não espera mais nada, absorve mais uma visita, mais um discurso, mais uma fotografia para as redes sociais e volta à sua condição permanente: a de ser tratado como se o descaso fosse tradição, e a negligência, patrimônio cultural. Como se não bastasse, assiste-se à preferência escancarada de destinar recursos de compensação das hidrelétricas para festas e eventos passageiros, em vez de investir na modernização de um espaço histórico, turístico e comercial no coração da cidade, como o Cai N’Água, que segue abandonado apesar de sua importância para a memória, a economia e a identidade de Porto Velho.

O Estatuto da Cidade garante o direito ao uso seguro e digno dos espaços urbanos. A Constituição garante o direito de ir e vir com segurança. O artigo 216 garante a proteção do patrimônio cultural. No Cai N’Água, todos esses direitos escorrem junto com sujeira, enquanto o cidadão desce com fé, sobe com sorte e permanece com seus direitos ignorados.

Porto Velho virou as costas para o Rio Madeira com tanta convicção que parece até que o rio é um problema, não o berço histórico da cidade. O Rio Madeira está ali, imenso, poderoso, esperando ser integrado à vida urbana novamente — mas a cidade insiste em tratá-lo como um parente pobre que só recebe visita quando ocorre a desgraça. Enquanto isso o Cai N’Água seguirá como um lugar degradado, aguardando mudanças no curso do rio.

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