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Curso para “homens enfraquecidos” e a tática machista de transformar dominação em vitimização


Dra. Celeste Leite dos Santos (MP-SP) e Dra. Luciana Inocêncio - Gente de Opinião
Dra. Celeste Leite dos Santos (MP-SP) e Dra. Luciana Inocêncio

No centro de debates recentes, a proposta de um curso voltado a “homens enfraquecidos”, como “O Farol e a Forja", ministrado pelo ator global Juliano Cazarré e apresentada como resposta a uma suposta crise masculina contemporânea, revela, no fundo, operação discursiva já conhecida: converter privilégio em sofrimento e dominação em vulnerabilidade. 

Sob aparência terapêutica e linguagem de acolhimento, este tipo de formulação desloca o foco da violência estrutural contra as mulheres para o desconforto subjetivo dos homens diante da perda de centralidade. Não se trata de negar o sofrimento psíquico masculino, mas de recusar que ele seja interpretado fora das relações históricas que organizam gênero, autoridade e controle. 

Num País em que os índices de feminicídio seguem alarmantes, falar em “homens fragilizados” como eixo principal de uma discussão soa menos como diagnóstico social e mais como cortina de fumaça. 

O feminicídio não é expressão de fraqueza, mas de domínio. É a manifestação extrema de uma masculinidade que reage à recusa, ao limite, à autonomia da mulher e à frustração com violência. O homem que agride ou mata porque foi contrariado não está “sem força”; está tentando restaurar, por meio de intimidação ou da eliminação da companheira, uma posição de comando que considera natural. 

Do ponto de vista psicológico, o problema central não é o enfraquecimento do ente masculino, mas, sim, a dificuldade de muitos em lidar com frustração, rejeição, igualdade de gênero e perda de controle. Quando a identidade do homem é construída tendo como balizas posse, superioridade e autoridade, qualquer deslocamento nestes lugares é encarado por ele como ameaça narcísica. 

Sem o enfrentamento explícito do machismo, da misoginia e de práticas concretas de violência, o discurso da escuta masculina pode funcionar, tão somente, como mecanismo de reorganização das hierarquias - à luz do seria ideal ao homem, vale frisar - e não de transformação ética. 

A mudança real exige mais do que sensibilização retórica; requer revisão crítica de privilégios, abandono da ideia de que a mulher existe como extensão da vontade masculina e o desenvolvimento de competências básicas, tais como empatia, tolerância à desilusão, responsabilidade social e reconhecimento de limites. 

Tornar-se menos machista e sexista não é detalhe acessório do debate; é seu núcleo. Qualquer formulação que substitua tal exigência por uma narrativa de vitimização masculina produz desvio político e flagrante rebaixamento moral do problema. 

Também, por isso, defendemos que o enfrentamento da violência de gênero não pode prescindir de resposta institucional firme. Medidas legislativas, como o Projeto de Lei (PL) 896/2023, que tipifica a misoginia, e o PL 3.890/2020, que institui o Estatuto da Vítima no Brasil, apontam para uma direção mais consequente: reconhecer a gravidade estrutural da violência contra mulheres e fortalecer mecanismos de proteção, de responsabilização e de reparação - inclusive financeira, material. 

O desafio contemporâneo não é amparar privilégios feridos de homens pouco afeitos à igualdade e à independência, oferecendo-lhes linguagem terapêutica. Isso seria romper com a longa tradição de se evitar encobrir a dominação masculina sob narrativas de fragilidade. Quando a vantagem se apresenta no papel de vítima, a desigualdade apenas muda de vocabulário para continuar operando, matando. 

*Dra. Celeste Leite dos Santos é promotora de Justiça em Último Grau do Colégio Recursal do Ministério Público (MP) de São Paulo; doutora em Direito Civil, pela Universidade de São Paulo (USP); mestre em Direito Penal, pela Pontifícia Universidade Católica (PUC) de São Paulo; presidente do Instituto Brasileiro de Atenção Integral à Vítima (Pró-Vítima); idealizadora do Estatuto da Vítima, da Lei de Importunação Sexual, e da Lei Distrital de Acolhimento de Vítimas, Análise e Resolução de Conflitos (Avarc); e coordenadora científica da Revista Internacional de Vitimologia e Justiça Restaurativa. 

*Dra. Luciana Inocêncio é psicóloga e psicanalista especialista em Transtornos Graves das Psicoses, pelo Colégio de Psicoanalísis de Madrid (Espanha); especialista em Psicologia Hospitalar e em Especialidades Médicas, pela Universidade de São Paulo (USP); especialista em Psicologia Clínica e em Teoria Psicanalítica, pela Pontifícia Universidade Católica (PUC) de São Paulo; e autora dos livros “Narcisistas”, “Psicanálise Presente na Vida Cotidiana”, “As Aventuras de Elvis”, “A Comida como Fuga Emocional” e “O Poder da Terapia na Terceira Idade”

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