Terça-feira, 21 de abril de 2026 - 13h28

Passar do espartilho da figura para a eficácia do serviço ao povo
… O que outrora foi ponta de lança das civilizações, do método científico ao Estado de direito, da Revolução Industrial à integração pós-nacional, reduz-se hoje a um continente que marca passo, tropeçando até nas suas próprias instituições.
O problema não é de conteúdos… A questão está na linguagem e na forma de os tornar operativos…
Criticámos a China de maneira sobranceira, muitas vezes com razão, especialmente no que toca ao controlo comunista, à ausência de um cidadão soberano no sentido ocidental e à repressão sistemática de liberdades fundamentais. Essa crítica sobranceira impediu-nos de ver o óbvio: a China passou-nos a perna em sectores decisivos da ciência e da técnica, sobretudo nas tecnologias limpas.
O caso do automóvel eléctrico é exemplar…
As pessoas e isto é um facto empírico, não um juízo moral, querem comer e viver bem. Não olham com rigor a quem as obriga, desde que as necessidades primárias estejam satisfeitas e haja perspectiva de melhoria…
A Europa sempre se prezou dos seus valores humanistas e do seu pioneirismo. Mas, paradoxalmente, nunca exerceu tanto controlo sobre as populações como hoje; fá-lo de maneira mais sofisticada e aparentemente democrática. Onde a China usa um partido único e uma arquitectura explícita de vigilância, a Europa usa regulamentação assimétrica, algoritmos de pontuação social disfarçados de “análise de risco”, condicionalidades de fundos europeus que moldam comportamentos, e uma correcção política que actua como censura difusa, sem necessidade de decretos.
A diferença não é de essência, mas de estilo. O Ocidente aproxima-se perigosamente do sistema que critica, a nível de controlo e influência da consciência social. A diferença é que o faz de maneira velada e hipócrita, de maneira a que a maioria das populações não se dê conta, porque as suas necessidades primárias encontram satisfação…
Há uma verdade incómoda que raramente se enuncia: na Europa, quem conta primeiro a nível de empreendimentos são as grandes empresas. O Estado e os seus governantes não estão interessados em preços baixos para o povo, porque quanto mais caros são os produtos, mais o Estado ganha à custa do povo que paga (IVA, impostos especiais de consumo, contribuições sociais embutidas nos preços)…
Enquanto a Europa impõe tarifas “anti-dumping” ou regulações ambientais que funcionam como barreiras não pautais, está na realidade a proteger não o trabalhador, mas a ineficiência instalada e a captura de renda pelas grandes empresas que considera relevantes para o Estado…
Uma tese final torna-se simples e incómoda para ambos os lados: a China tem muito que aprender com a Europa em matéria de soberania do cidadão, de garantias processuais e de pluralismo. Mas a Europa tem muito que aprender com a China em matéria de eficácia executiva, de visão industrial de longo prazo e de coragem para subordinar interesses instalados ao bem-estar material da população…
O dogma ocidental de que a democracia liberal é condição sine qua non para o desenvolvimento tecnológico está factualmente errado porque a China desmentiu-o. O dogma chinês de que o controlo partidário é compatível com a inovação sustentada a longo prazo também enfrenta os seus limites, na demografia, na criatividade reprimida, na fuga de cérebros…
Qualquer sistema que se meça apenas pela pureza dos seus princípios, e não pelos seus efeitos, está condenado à irrelevância ou à hipocrisia…
E aprender, para uma civilização que se quer humanista, é o acto mais humilde e mais forte porque passa a caminhar com o povo sem perder a bússola da mão.
António da Cunha Duarte Justo
Texto completo em Pegadas do Tempo: https://antonio-justo.eu/?p=
25 DE ABRIL EM CAMPANHA NACIONAL
Vive o partido em campanha sem fim,
palco de sombras num teatro vão;
o povo é plateia, ou antes, refrão,
e o Estado, cenário que serve o fim.
No 25 de Abril, de luz muito ténue,
há gritos, flores, fardas de poeira.
Parece a Mocidade a tarde inteira,
mas cada qual mais hábil se abranda.
E ninguém vê além? O sistema, esperto,
filtra o olhar com gaza de discurso.
E a classe que podia mudar seu curso
vive melhor na impostura do certo.
O povo lê a mesma cartilha, errado,
e aplaude o gesto, crê no que já viu.
O pensamento dói? Mas é melhor,
ficar na mediania, lado a lado.
A propaganda infecta tudo, infecta
o voto, a rua, a pátria, o coração.
Não há remédio porque somos a prisão
e o carcereiro. A vontade está afecta.
Desdenha-se do outro, fala-se mal.
O desacordo é o pão de cada um.
O partido, por gosto ou por algum
destino, vive do caos vertical.
E o Estado, pobre administrador
da mesma miséria que o mantém,
regando o mal que de si mesmo vem,
faz da inércia o seu melhor labor.
Medíocres, sim, porque pensar exige
mudança e dor, mas quem deseja a dor?
Faz de conta que amamos o Senhor
mas o Senhor é o mesmo que nos aflige.
Hipocrisia em verso e argumento.
E ainda há quem viva melhor, sem consenso.
O resto é canto, é pó, é tempo imenso
num palco onde ninguém sai do centro.
A ironia, meu povo, é esta lúcida:
todos no mesmo barco, a olhar de lado,
a ver o naufragar perpetuado
e a chamar-lhe Democracia plácida.
António da Cunha Duarte Justo
Pegadas do Tempo: https://antonio-justo.eu/?p=
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