Terça-feira, 5 de maio de 2026 - 10h30

Ester
Dias da Silva Batista – mestranda do PPGCTS/UFSCar
O
que fazer para alavancar a pesquisa, o Pensamento Científico, a inclusão,
democratização e popularização da Ciência no Brasil?
Em
realidade, essa pergunta não deveria ser feita, pois, em condições razoáveis,
estaríamos em uma situação, num estágio de desenvolvimento da educação e do
conhecimento científico, em que o óbvio não precisaria ser indagado ou dito.
Contudo,
se vale uma ponderação diante do nosso atual quadro clínico de desmonte,
precarização neoliberal (chamemos de “uberização da vida social”), podemos
pensar que se os recursos dissolvidos em orçamento secreto, emendas
parlamentares, fundo eleitoral partidário, tivessem o destino da educação e da Ciência
essa pergunta estaria 90% respondida.
Como
se sabe, no Brasil, a maior parte da pesquisa e da Ciência é produzida por
entidades e instituições públicas, sejam estaduais sejam federais. Essa
insistência, uma luta política constante, na preservação do pensamento crítico,
criativo e propositivo é o próprio DNA, o sentido lapidar de quem se dedica à
“construção de um saber” constitutivo, emancipatório, efetivamente societal.
Desse
ponto de vista, não é incorreto afirmar que essa escolha (que envolve inúmeras
renúncias) envolve dois aspectos essenciais da vida acadêmica e pessoal: a
vocação e a profissão. Ninguém passa 30, 40 anos de sua vida num “campo de
luta” que o rejeita e despreza; ninguém passa essas mesmas décadas sem lutar
por suas condições materiais mínimas, de atuação, sobrevivência e
desenvolvimento pessoal, se não houver determinação pela causa. Isso ocorre porque
há forte vocação com forte senso profissional.
Podemos
levar, esperar, cobrar, consequência numa atividade tão específica como a Ciência?
Para
muitos, a Ciência sequer tem uma definição científica. Mas, pode vir a ter?
Digamos
inicialmente que a Ciência é um processo de investigação que segue padrões ou
modelos específicos (metodologia científica), com destaque para a observação,
prospecção ("experimentação"), catalogação, análise (refutação ou
confirmação de postulados, teorias anteriores), em que a crítica surge com a
insatisfação (incerteza) diante das afirmações predominantes, sem que se anule
todas as interferências externas, não cientificas, impostas pela política,
economia, cultura, moral e pela própria visão de mundo do sujeito cognoscente
sobre o objeto cognoscível (e que pode ser o mesmo sujeito, com "lugar de
fala"). Um exemplo disso é verificável quando subsumimos com perspectiva
integrada da luta de classe racista, em razão do determinismo identitário –
fato amplamente previsto nas Ciências Sociais.
Portanto,
como toda produção humana, a Ciência não ocorre de forma isolada, nem está
isenta de interferências externas; pelo contrário, a Ciência é atravessada por
dimensões políticas, econômicas, sociais e culturais, além da própria visão de
mundo dos sujeitos que a produzem e destinada unicamente a atender aos
interesses que a patrocinam.
Desse
modo, vemos que a não neutralidade da produção científica, dado que as escolhas
sobre quais perspectivas serão observadas, as hipóteses formuladas, quais problemas
são inventariamos para investigação e tantos outros fatores, tudo isso
combinado revela o grau, o tipo, o nível de influência cambiada.
Além
de se objetar qualquer pretensa neutralidade, outrossim, demonstra-se como a
ação do sujeito na construção desse conhecimento é, ao mesmo tempo, relevante e
impactante em sua constituição.
E,
neste ponto, podemos indagar: qual é a Ciência que interessa ao Brasil?
Pensemos
em três caminhos ou hipóteses já posicionadas:
A
primeira, que é uma Ciência express, precisa ser uma produção científica
rápida, cada vez mais rápida, que traga resultados no momento desejado – então,
aquela percepção de que a Ciência é algo que demora, no sentido de gestar, é
cada vez menos respeitada.
A
segunda, que seria uma Ciência não necessariamente produtiva, mas que fosse
responsiva às demandas da classe dominante e que é rapidamente esquecida. Por
exemplo, aquele boom da polilaminina, a galera viu super, a bióloga foi chamada
para vários lugares, mas o tempo para que essa pesquisa fosse realmente
produzida foi muito criticado (voltando-se àquela ideia da Ciência express).
No
fim, foram deixadas pra lá, substancia e pesquisadora, também porque outras
coisas "tomaram o lugar". Como se vê, o modismo consumista,
descalibrado como negacionismo ou pseudociência, é uma presença constante.
Assim, chegamos à terceira possibilidade, que deveria ser a primeira, mas que é sempre relegada ao terceiro pavimento: essa perspectiva, que deveria ser nossa premissa, ensina assim: a Ciência relevante a um país é aquela que serve ao seu povo, em primeiro lugar, e, em segunda afirmação, é aquela Ciência que visa combater as desigualdades, as declarações de incapacidade de quem mais necessita de educação e de Ciência, que é o povo pobre, negro e oprimido.
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