Sábado, 30 de maio de 2026 - 15h19

O
capitalismo é contraditório e isso significa dizer que produz uma ciência capaz de
reduzir a fome, combater as letalidades naturais, ao mesmo tempo em que se
organiza como um complexo que chamamos de Capitalismo digital – movimentando-se
e se fortalecendo com o crescimento vertiginoso da indústria da morte, além do
agravamento da miséria humana, da concentração de renda, do abuso sistemático
das redes antissociais: criadoras de elevados níveis de infantilização
moral/cognitiva, prescritivas da dessocialização ao invés de transformarem a
interatividade em Interação Social.
Então, a ciência produzida pelo
sistema capitalista é igualmente contraditória: a ciência é um Mito da
modernidade e traduz um pharmakón – remédio e veneno, concomitantemente,
dependendo da dosagem; assim como é a digitalização social e a nossa
subordinação e dependência tecnológica. Talvez, pela primeira vez na história
da Humanidade, tenhamos criado duas monstruosidades insolvíveis: (i) a vida
humana depende totalmente do aprofundamento da Tecnociência; (ii) criamos um
problema que não conseguimos solucionar.
Assim, a ciência é política. Tanto é
Ciência Política quanto é política científica: o que financiar, o que
pesquisar, para que, com quem, como, onde? Ou seja, não há nenhuma neutralidade
– a escolha do objeto já diz quem somos, bem como traz muitas respostas. Outra
questão é a objetividade – se e quando possível, preferencialmente não sendo
positivista, maniqueísta ou monista.
Lembremos que, quem pode e não tem
organização financeira possui um déficit, um passivo. Quem pode e não tem
objetividade nas finanças está endividado: mais de 50% das famílias brasileiras,
por muitas razões, estão nessa condição.
Considerar tudo isso, a partir do impacto
social (investimento ou custo?) do curso atribuído ao desenvolvimento da
ciência, da educação, do conhecimento, é uma parte significativa, fundamental,
do Pensamento Complexo. Mas, se assim é ou deveria ser, por que a
educação pública no país é tida como custo social?
Não existe complexidade fora do âmbito
social, da política, dos nichos atuais e históricos do Processo Civilizatório.
Vejamos com a consciência do Bom
Senso: o desenvolvimento da Inteligência Artificial (IA) seria mais complexo do
que o combate político e epistemológico ao Heliocentrismo? Hoje, não promove
uma luta semelhante quem debela a ideologia da Terra plana?
Desse modo retornamos à política, à
visão de mundo que temos. Se nossa visão de mundo compartilha a pluralidade, o
pluralismo, então, está atenta à Democracia e ao Princípio do
Contraditório, e que é, basicamente – além da alternância do poder e a
observação das regras do jogo –, a capacidade de dizer não, de contradizer, de
desdizer, de dizer contra. Se no “fazer ciência” não existe esse “fazer-se
política”, por óbvio, não há ciência propriamente dita.
Se
persiste a opacidade, a negação da capacidade de se opor à hegemonia, por
óbvio, só há um copiar e colar, pois, predomina a reprodução dogmática,
sectária, superficial de slogans e de alguma militância, quando, ao contrário,
deveria haver a fluência do Princípio Democrático:
I)
A
Política, sob a bandeira democrática, não terá sempre um céu de brigadeiro para
desfraldar, mas também não se moverá em uma eterna tempestade perfeita.
II)
A
democracia pode ser a força disruptiva do poder, se aqui tratamos de um poder
autocrático; entretanto, se entendermos o poder como organização – e, neste
caso, é difícil não concluir que se trata de organização social –, a autocracia
é que atuará como força disruptiva do Princípio Democrático.
Neste sentido, temos
que, sumariamente, o Princípio Democrático é assim apresentado:
O princípio democrático
não se compadece com uma compreensão estática de democracia. Antes de mais, é
um processo de continuidade transpessoal, irredutível a qualquer
vinculação do processo político a determinadas pessoas. Por outro lado, a
democracia é um processo dinâmico inerente a uma sociedade aberta e ativa,
oferecendo aos cidadãos a possibilidade de desenvolvimento integral, liberdade
de participação crítica no processo político, condições de igualdade econômica,
política e social [...] O princípio democrático aponta, porém, no sentido
constitucional, para um processo de democratização extensiva a
diferentes aspectos da vida econômica, social e cultural [...] A democracia é,
no sentido constitucional, democratização da democracia [...] O
princípio democrático não elimina a existência das estruturas de domínio mas
implica uma forma de organização desse domínio. Daí o caracterizar-se o
princípio democrático como princípio de organização da titularidade e
exercício do poder. Como não existe uma identidade entre governantes e
governados e como não é possível legitimar um domínio com base em simples
doutrinas fundamentantes é o princípio democrático que permite organizar o
domínio político segundo o programa de autodeterminação e autogoverno: o poder
político é constituído, legitimado e controlado por cidadãos (povo), igualmente
legitimados para participarem no processo de organizar da forma de Estado e de
governo (Canotilho, 1990, p. 287- 288).
É
possível abrir mão dessa racionalidade (democrática e científica?) –
notadamente ao se confundir razão com racionalização e, mais ainda, reduzindo-se
todo o esforço humano acumulado, precisamente, na hominização e na
capacidade humana de tratar sua (nossa) omnilateralidade futura, do
devir – e, assim, se bastar na denúncia da inegável e hegemônica Razão
Instrumental[1]?
Esse
é o sentido de se apostar na democracia como uma resposta ao próprio Princípio
da Perfectibilidade (originado na sabedoria da falibilidade), na busca por
mecanismos e rotas corretivas, tendo-se em vista a continuidade e o
aprimoramento do processo, da jornada: depuração, higienização, da própria
democracia e de suas instituições de referência e de sustentabilidade.
1)
Veja-se o Princípio do Sufrágio Universal, na rota do aprimoramento que
apazigua a viagem, a fim de que muitos outros, “novos”, sujeitos possam se
instalar e participar, refazendo-se no passeio pela Política.
2)
Se os “novos” ingressantes da nossa nau de navegação política forem somente
passageiros sem envolvimento, meros espectadores, é muito provável que o
capitão do barco se sentirá tão à vontade que será capaz de inovar no percurso
e, por vezes, o destino pode não ser aquele planejado quando compramos a
passagem do passeio político.
Aliás,
sem viajantes responsáveis (politicamente), a viagem pode ter um cupom só de
ida; sem dialogicidade, complementação na discordância, superação das
diferenças, fatalmente, desembocaremos numa rua de mão única.
O
“fazer ciência” pode/de ser militante – como é todo “saber militante” que se
insurge contra o status quo abastado de mesmice, elitismo e negacionismo
–, pode ser ensaístico: o que não podemos é confundir ciência, incluindo-se a
popularização da ciência, com panfletagem.
Nem
toda ciência, a começar da profundidade requerida ao Pensamento Científico –
como massa crítica –, poderá ser divulgada digitalmente e menos ainda ser alvo
da oportuna e necessária popularização. Há conhecimentos, em sua complexidade e
profundidade, que não cabem num podcast. Na imensa maioria das vezes, para se
falar de ciência propriamente dita, a visão de mundo requer muito lastro
conceitual para se obter algum alcance cognitivo.
Popularmente,
a insistência na cultura high-tech desdobra-se na popular “analfabetização”. A
irmã gêmea é a infantilização, a alienação, a massa de manobra recorrente ao
invés da insuficiente alimentação da massa crítica.
Em conformidade com o que vimos, onde
estará a ciência com consciência?
E o que será ciência, afinal de
contas?
E a consciência de que tanto se fala,
o que será isso?
Às vezes, a ciência não conduz ao
entendimento fácil; muitas vezes, e deve ser assim, primeiro, deve produzir um
desentendimento, um desconforto – sobretudo para quem torce o nariz quando não
se trata de uma resposta que cabe no WhatsApp.
Isto
é Pensamento Científico – para além do necessário conhecimento
científico. Sem dúvida que tratamos aqui da crítica e da criatividade.
Referências
ADORNO, Theodor W. Minima Moralia. Lisboa-Portugal: Edições 70, 2001.
BOBBIO, Norberto. A teoria das formas de governo. 4. ed. Brasília: Editora da UNB, 1985.
CANOTILHO, José Joaquim Gomes. Direito Constitucional e Teoria da Constituição. 4ª Edição. Lisboa-Portugal: Almedina, 1990.
MORIN, Edgar. Ciência com consciência. Rio
[1] “O que a razão de Estado da
todo-poderosa economia tão cinicamente declara atinge, inconfessadamente, os
modos de conduta dos indivíduos [...] Segundo todos os desiderata da moral privada, e ainda dos mais avançados, o rico
poderia, se quisesse, ser de fato melhor do que o pobre [...] A bárbara
religião atual do êxito não é, pois, somente contraria à moral; o Ocidente
descobre também nela um caminho para regressar aos honrosos costumes dos pais
[...] Toda a moral se configurou sempre pelo modelo do imoral [...] A moral dos
escravos é, de fato, má: é ainda sempre a moral dos senhores” (Adorno, 2001,
p.191).
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