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Vinício Carrilho

CIÊNCIA É CONSCIÊNCIA ¹?


CIÊNCIA É CONSCIÊNCIA ¹? - Gente de Opinião

        O capitalismo é contraditório e isso significa dizer que produz uma ciência capaz de reduzir a fome, combater as letalidades naturais, ao mesmo tempo em que se organiza como um complexo que chamamos de Capitalismo digital – movimentando-se e se fortalecendo com o crescimento vertiginoso da indústria da morte, além do agravamento da miséria humana, da concentração de renda, do abuso sistemático das redes antissociais: criadoras de elevados níveis de infantilização moral/cognitiva, prescritivas da dessocialização ao invés de transformarem a interatividade em Interação Social.

          Então, a ciência produzida pelo sistema capitalista é igualmente contraditória: a ciência é um Mito da modernidade e traduz um pharmakón – remédio e veneno, concomitantemente, dependendo da dosagem; assim como é a digitalização social e a nossa subordinação e dependência tecnológica. Talvez, pela primeira vez na história da Humanidade, tenhamos criado duas monstruosidades insolvíveis: (i) a vida humana depende totalmente do aprofundamento da Tecnociência; (ii) criamos um problema que não conseguimos solucionar. 

          Assim, a ciência é política. Tanto é Ciência Política quanto é política científica: o que financiar, o que pesquisar, para que, com quem, como, onde? Ou seja, não há nenhuma neutralidade – a escolha do objeto já diz quem somos, bem como traz muitas respostas. Outra questão é a objetividade – se e quando possível, preferencialmente não sendo positivista, maniqueísta ou monista.

          Lembremos que, quem pode e não tem organização financeira possui um déficit, um passivo. Quem pode e não tem objetividade nas finanças está endividado: mais de 50% das famílias brasileiras, por muitas razões, estão nessa condição.

           Considerar tudo isso, a partir do impacto social (investimento ou custo?) do curso atribuído ao desenvolvimento da ciência, da educação, do conhecimento, é uma parte significativa, fundamental, do Pensamento Complexo. Mas, se assim é ou deveria ser, por que a educação pública no país é tida como custo social?

          Não existe complexidade fora do âmbito social, da política, dos nichos atuais e históricos do Processo Civilizatório.

          Vejamos com a consciência do Bom Senso: o desenvolvimento da Inteligência Artificial (IA) seria mais complexo do que o combate político e epistemológico ao Heliocentrismo? Hoje, não promove uma luta semelhante quem debela a ideologia da Terra plana?

          Desse modo retornamos à política, à visão de mundo que temos. Se nossa visão de mundo compartilha a pluralidade, o pluralismo, então, está atenta à Democracia e ao Princípio do Contraditório, e que é, basicamente – além da alternância do poder e a observação das regras do jogo –, a capacidade de dizer não, de contradizer, de desdizer, de dizer contra. Se no “fazer ciência” não existe esse “fazer-se política”, por óbvio, não há ciência propriamente dita.

Se persiste a opacidade, a negação da capacidade de se opor à hegemonia, por óbvio, só há um copiar e colar, pois, predomina a reprodução dogmática, sectária, superficial de slogans e de alguma militância, quando, ao contrário, deveria haver a fluência do Princípio Democrático:

I)                A Política, sob a bandeira democrática, não terá sempre um céu de brigadeiro para desfraldar, mas também não se moverá em uma eterna tempestade perfeita.

II)             A democracia pode ser a força disruptiva do poder, se aqui tratamos de um poder autocrático; entretanto, se entendermos o poder como organização – e, neste caso, é difícil não concluir que se trata de organização social –, a autocracia é que atuará como força disruptiva do Princípio Democrático.

 

Neste sentido, temos que, sumariamente, o Princípio Democrático é assim apresentado:

O princípio democrático não se compadece com uma compreensão estática de democracia. Antes de mais, é um processo de continuidade transpessoal, irredutível a qualquer vinculação do processo político a determinadas pessoas. Por outro lado, a democracia é um processo dinâmico inerente a uma sociedade aberta e ativa, oferecendo aos cidadãos a possibilidade de desenvolvimento integral, liberdade de participação crítica no processo político, condições de igualdade econômica, política e social [...] O princípio democrático aponta, porém, no sentido constitucional, para um processo de democratização extensiva a diferentes aspectos da vida econômica, social e cultural [...] A democracia é, no sentido constitucional, democratização da democracia [...] O princípio democrático não elimina a existência das estruturas de domínio mas implica uma forma de organização desse domínio. Daí o caracterizar-se o princípio democrático como princípio de organização da titularidade e exercício do poder. Como não existe uma identidade entre governantes e governados e como não é possível legitimar um domínio com base em simples doutrinas fundamentantes é o princípio democrático que permite organizar o domínio político segundo o programa de autodeterminação e autogoverno: o poder político é constituído, legitimado e controlado por cidadãos (povo), igualmente legitimados para participarem no processo de organizar da forma de Estado e de governo (Canotilho, 1990, p. 287- 288).

 

É possível abrir mão dessa racionalidade (democrática e científica?) – notadamente ao se confundir razão com racionalização e, mais ainda, reduzindo-se todo o esforço humano acumulado, precisamente, na hominização e na capacidade humana de tratar sua (nossa) omnilateralidade futura, do devir – e, assim, se bastar na denúncia da inegável e hegemônica Razão Instrumental[1]?

Esse é o sentido de se apostar na democracia como uma resposta ao próprio Princípio da Perfectibilidade (originado na sabedoria da falibilidade), na busca por mecanismos e rotas corretivas, tendo-se em vista a continuidade e o aprimoramento do processo, da jornada: depuração, higienização, da própria democracia e de suas instituições de referência e de sustentabilidade.

1) Veja-se o Princípio do Sufrágio Universal, na rota do aprimoramento que apazigua a viagem, a fim de que muitos outros, “novos”, sujeitos possam se instalar e participar, refazendo-se no passeio pela Política.

2) Se os “novos” ingressantes da nossa nau de navegação política forem somente passageiros sem envolvimento, meros espectadores, é muito provável que o capitão do barco se sentirá tão à vontade que será capaz de inovar no percurso e, por vezes, o destino pode não ser aquele planejado quando compramos a passagem do passeio político.

Aliás, sem viajantes responsáveis (politicamente), a viagem pode ter um cupom só de ida; sem dialogicidade, complementação na discordância, superação das diferenças, fatalmente, desembocaremos numa rua de mão única.

O “fazer ciência” pode/de ser militante – como é todo “saber militante” que se insurge contra o status quo abastado de mesmice, elitismo e negacionismo –, pode ser ensaístico: o que não podemos é confundir ciência, incluindo-se a popularização da ciência, com panfletagem.

Nem toda ciência, a começar da profundidade requerida ao Pensamento Científico – como massa crítica –, poderá ser divulgada digitalmente e menos ainda ser alvo da oportuna e necessária popularização. Há conhecimentos, em sua complexidade e profundidade, que não cabem num podcast. Na imensa maioria das vezes, para se falar de ciência propriamente dita, a visão de mundo requer muito lastro conceitual para se obter algum alcance cognitivo.

Popularmente, a insistência na cultura high-tech desdobra-se na popular “analfabetização”. A irmã gêmea é a infantilização, a alienação, a massa de manobra recorrente ao invés da insuficiente alimentação da massa crítica.

          Em conformidade com o que vimos, onde estará a ciência com consciência?

          E o que será ciência, afinal de contas?

          E a consciência de que tanto se fala, o que será isso?

          Às vezes, a ciência não conduz ao entendimento fácil; muitas vezes, e deve ser assim, primeiro, deve produzir um desentendimento, um desconforto – sobretudo para quem torce o nariz quando não se trata de uma resposta que cabe no WhatsApp.

Isto é Pensamento Científico – para além do necessário conhecimento científico. Sem dúvida que tratamos aqui da crítica e da criatividade.

 

Referências 

ADORNO, Theodor W. Minima Moralia. Lisboa-Portugal: Edições 70, 2001. 

BOBBIO, Norberto. A teoria das formas de governo. 4. ed. Brasília: Editora da UNB, 1985. 

CANOTILHO, José Joaquim Gomes. Direito Constitucional e Teoria da Constituição. 4ª Edição. Lisboa-Portugal: Almedina, 1990. 

MORIN, Edgar. Ciência com consciência. Rio



[1] “O que a razão de Estado da todo-poderosa economia tão cinicamente declara atinge, inconfessadamente, os modos de conduta dos indivíduos [...] Segundo todos os desiderata da moral privada, e ainda dos mais avançados, o rico poderia, se quisesse, ser de fato melhor do que o pobre [...] A bárbara religião atual do êxito não é, pois, somente contraria à moral; o Ocidente descobre também nela um caminho para regressar aos honrosos costumes dos pais [...] Toda a moral se configurou sempre pelo modelo do imoral [...] A moral dos escravos é, de fato, má: é ainda sempre a moral dos senhores” (Adorno, 2001, p.191).

* O conteúdo opinativo acima é de inteira responsabilidade do colaborador e titular desta coluna. O Portal Gente de Opinião não tem responsabilidade legal pela "OPINIÃO", que é exclusiva do autor.

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