Domingo, 26 de abril de 2026 - 15h03

Tendo-se a clareza de que,
todos/as que pedem uma pizza pelo aplicativo estimulam, reproduzem, monetizam a
lógica da uberização social, nesse texto, traremos alguns pontos essenciais a
uma Epistemologia política crítica ao momento e ao estágio atual da
desumanização: uberização social.
A desnaturalização da condição humana
Penso que, quando um professor
chega nesse estágio de violência, a ponto de atacar a tiros o presidente dos
EUA, ele está subsumido pela mais grave “esquizofrenia social” [1].
Desse modo, esse professor
apenas reflete o nível de "doença sistêmica" da sociedade capitalista
na qual vive – salvo se sempre teve (tem) algum distúrbio psíquico muito grave.
Pela premeditação, até onde
sabemos, parece que estava "conversando" com o seu líder na única
linguagem que ele compreende: a violência letal. Neste caso, como resultado de
uma sociedade bélica, desorientada, extremamente fragmentada, o professor
sinaliza para o que o capitalismo aponta.
Vamos persistir no aspecto de
que, se um professor recorre ao uso de arma de fogo para atingir seu líder (e
acólitos), a doença do capitalismo chegou no seu extremo.
O capitalismo conseguiu
desumanizar por completo quem deveria ensinar crianças e jovens a não
praticarem a violência, mas sim o conhecimento. Penso que esse é o estágio
mais baixo, virulento, letal, que conhecemos da sociedade capitalista.
Também penso que nossa
obrigação, como profissionais da educação, é propormos uma educação
anticapitalista, contra a própria violência que o sistema produz
reiteradamente.
Contudo, é preciso olhar para
o presente, é obrigatório entendermos que o ponto central, a receber o foco da
nossa atenção, é a uberização social, a fragmentação, a indiferença, o
estranhamento social e a negação ou dissolução de si[2].
De alguma forma bem
específica, na condição psíquica (e que não é a minha área), esse professor é
apenas uma singularidade do estilhaçamento das subjetividades e das
consciências de todo mundo, neste breve 2026.
Esse professor-atirador é uma fagulha
da uberização social, essa total desagregação e exclusão do indivíduo pelo
sistema produtivo, descartado pelos símbolos de significação, reconhecimento e
legitimidade, e que precisamos entender para atuar contra.
Da contínua uberização social
O professor, a professora,
como parte atuante e decisiva na formação do “novo Homem”, que predizia Paulo
Freire n’A Pedagogia do Oprimido[3], precisa ser “educado/a” –
como ensinou Marx, na Ideologia Alemã –, para reconhecer a absoluta
precarização e o total distrato social em que se encontra.
Somente assim, o/a professor/a
poderá atuar para mudar as condições em que se encontra, juntamente com seus
alunos e alunas; afinal, são as mesmas condições de negação da existência
social, econômica, política, cultural (societal) que atingem a todos.
Esse quadro de uberização
social – em situação direta (motorista de aplicativo, entregador freelance) ou
indireta (tomador/a de serviços) – não apenas revela o total desamparo e a
insegurança jurídica, mas nos coloca no miolo do problema.
Acima de tudo, a uberização
social nos revela que ninguém está isento – retirando-se a barbárie do
escravismo, antigo e moderno – do maior e mais grave, profundo, estágio de
associação do Humano com a mercadoria, com a coisa e, portanto, com a plena identificação
com a coisificação (reificação globalizada).
É importante conhecer a
Maquinaria por dentro? Sim, é obrigatório, pois é apenas assim que se entende a
lógica perversa do capital, na forma da espoliação dos produtores/as,
trabalhadores/ras.
Porém, além do entendimento
(análise e reconhecimento fático) das condições originárias do capitalismo do
século XIX – como promissor resultado das duas revoluções industriais e
políticas (americana e francesa) –, é nossa obrigação entender os “tempos
modernos” deste início de século XXI (para só então poder atuar).
Diferentemente da classe
trabalhadora que dividia o mesmo chão de fábrica, todos os dias, em escalas de
trabalho que exauriam qualquer esperança – mas que oferecia um piso onde
assentar a consciência de classe –, hoje, o trabalho uberizado interliga o/a
trabalhador/a com um algoritmo frio, calculista, capitalista. Não existe mais
um Humano na outra ponta da linha, a chefia é uma máquina de moer pessoas e de
fazer dinheiro.
Sendo assim, se o filme Tempos
Modernos de Chaplin é um clássico do cinema mudo que nos fala até hoje como é a
lógica capitalista, por outro lado, um outro filme precisa ser rodado para
auxiliar (esteticamente) no entendimento da uberização social – são tempos
modernos revirados, são tempos pós-modernos altamente disruptivos, destrutivos,
desumanizantes.
Uma
das características dessa uberização social, como a descrevemos, se associa bem
à fragmentação que perde qualquer filamento social, revelando-se doentia,
parasitária, com inoculação absurdamente ativa.
Não temos noção adequada do
processo atual, estamos tão-somente nas aparências, nas camadas superficiais,
desse avanço da degradação humana; no entanto, é possível visualizar e entender
(mais claramente e ainda que não seja conscientemente) que a exceção
(uberização) se converteu em regra – ninguém está imunizado ao processo, ao
contágio, quer seja pedindo uma pizza quer seja contratando a revisão freelance
do seu próprio trabalho.
Há
uma “naturalização da exceção[4]” e isso produz um
reiterado looping da exceção originária. O que deveria ser exceção – o trabalho
terceirizado, o/a uber – tornou-se uma regra.
As motivações podem ser
variadas, desde a ausência absoluta de condições de empregabilidade formal, até
“usar” a uberização como complemento de renda; esta seria, propriamente, a
uberização do Mundo do trabalho[5].
O motivo, no sentido que
analisamos agora, não é o mais relevante, mas sim a lógica que o explica, ou
seja, ninguém se assusta, muito menos se furta, diante do acesso ou da inclusão
na uberização. Quem não quer uma pizza?
Podemos estar presentes,
inclusive, numa reunião séria em que se discuta a uberização de forma
aprofundada, sociologicamente, e, passado algum tempo, um dos presentes pedir
algum serviço de entrega de bebidas e de comidas.
A uberização social se revela,
nesse exemplo tão comum da pizza, porque nenhum dos presentes se daria conta de
que o “objeto” está indo ao seu encontro para satisfazer suas necessidades
primárias: beber e comer.
No
exemplo que demos do especialista que pede o serviço uberizado não há
desconhecimento, alienação, indiferença diante do/a entregador/a de pizza. É de se imaginar que esse/a especialista seja
capaz de visualizar o entregador/a da pizza e o associar ao motorista do uber,
uma vez que a lógica de degradação é a mesma. Então, se não é desconhecimento.
O que seria?
Quando a exceção vira regra
Atua de forma hegemonizada,
como entendemos aqui, uma lógica da “naturalização da exceção”, quando a
presença massiva, sistêmica, sistemática da exceção a torna uma regra
imperativa. É desse modo que ninguém mais duvida de que seja uma exceção – pois,
de tão presente, fez-se uma “regra natural”.
E o que é mais natural do que
a classe média pedir uma pizza pelo aplicativo, a ser entregue pelo filho/a das
classes subalternizadas, oprimidas e excluídas?
Não se trata somente da
informalidade no emprego, como o trabalho nas folgas, ou a prestação de serviço
em reparos domésticos (via de regra, provém de contatos diretos), posto que
trata do fato de que a plataforma que intermedia a compra e venda da força de
trabalho[6] tem uma regra só para si e
a faz valer universalmente, globalizando-se a exploração por todos os meios da
vida social.
Por isso, ninguém está imune à
parasitária fase do capitalismo atual. O que podemos ver é que se trata do capitalismo
improdutivo de bens, no ápice da identificação do capital com os serviços, e,
desse prisma, também pode valer o acrônimo do “servilismo voluntário”. Quem
compra a pizza trabalha para a plataforma que providencia a entrega.
A
exploração do trabalho pelo capital sempre foi a principal regra capitalista
(Princípio da Hierarquia), não há exceção aqui. A naturalização da exceção se
vale da aplicação da lógica segundo a qual, embrenhados nos “nossos” não tão novos
tempos modernos, não percebemos o quão profundamente estamos submersos, não só
na exploração do capital sobre o trabalho, mas na degradação humana, na mais
profunda desumanização: na uberização social.
O looping da exceção, via
uberização social, é tão profundo e pernóstico que não nos vemos ativos no
processo, a exemplo de quem “apenas compra uma pizza pelo aplicativo”. Pela
presença massacrante dos algoritmos de aplicativos de serviços em nossas vidas,
a uberização se tornou parte da paisagem natural.
Neste aspecto, vale insistir,
o looping da exceção é hoje o motor da uberização social; outrossim, para além
da condição laboral, uma vez que a naturalização da exceção alcança todos os
níveis da vida social.
Esse looping da exceção é a
cadeia de rolagem, na rodagem da política, da cultura, da educação, é o que
desmonta as relações sociais pacificadas e leva um professor a atacar a tiros
um presidente da República.
Quando
chamamos uma corrida uberizada e, pelo menos, indagamos sobre a rotina de
trabalho da pessoa, apesar de ser um passo tímido, já é alguma coisa. Ainda que
estejamos aprendendo apenas com nossos sentidos (senciência), quem sabe, o fato
de o/a motorista falar de si não o/a leve a se escutar. Talvez, assim, a nossa
senciência limitada (escutar) seja a motivação da consciência do/a motorista.
De
todo modo, se é difícil apontar, diagnosticar “o que” ocorre, definir o “que
fazer” – como fazer, “para quem” de modo direto e primário, com quais meios, e
quando – é ainda mais nebuloso. Não há muita clareza, certeza, nos tempos
atuais, em meio a tantas fragmentações, insuficiências, inconsistências. Mas, é
preciso agir.
O que fazer?
A premissa tem que ser clara,
pois nem todo trabalhador-capitalista, cooptado pela ideologia capitalista, é
capitalizado; assim como hoje nem todo mundo está submetido ao trabalho
uberizado. Porém, todos nós estamos subsumidos à lógica da “naturalização da
exceção” e que monetiza a uberização social.
Se a imposição de uma
legislação de segurança no trabalho, propriamente uberizado, tem caráter de
urgência/urgentíssima, se é minimamente humanizador pensar-se em formas de
políticas públicas protetivas a esses/essas trabalhadores/as, em complemento, a
educação crítica seria, além de tudo, uma educação anticapitalista, crítica à
uberização social – principalmente porque esse processo de máxima exploração é
sinônimo de desumanização (estranhamento de si e da realidade).
Portanto, toda educação
crítica ao capital, hoje, deveria partir desse fenômeno atual, de presença sem
disfarces na fragmentação humana, na desorganização social, na perda de
identidade, uma vez que só assim poderemos pensar em propor alguma reflexão que
venha a ocasionar uma ação transformativa.
Então, quais aspectos você
destacaria em uma Educação Crítica da Uberização, tendo-se em conta que
deveria ter algum significado econômico, político, social, cultural, efetivo,
para os mais afetados/as, explorados/as?
[1] Link: https://noticias.uol.com.br/internacional/ultimas-noticias/2026/04/26/policia-identifica-suspeito-de-ataque-em-evento-com-trump.ghtm.
Acesso em 26/04/2026.
[2] https://www.gentedeopiniao.com.br/politica/vinicio-carrilho/abducao-social-educar-pelo-pensamento.
Acesso em 26/04/2026.
[4] MARTINEZ, Vinício Carrilho. *Educação
para além da exceção*: Educação para além do capital, Educação após
Auschwitz, e depois de Gaza, Educação Política, Educação em direitos humanos,
Educação Constitucional. KDP - Amazon: São Carlos, 2025c, 709 páginas. Acesso: https://a.co/d/3upl65K.
[5] https://www.intercept.com.br/2019/04/08/uberizacao-das-relacoes-de-trabalho/?utm_source=tp_google_interceptbr&utm_medium=cpc&utm_campaign=trafego_news&gad_source=1&gad_campaignid=23575505167&gbraid=0AAAAA-GeiJfy0LuGI6jtuoNcuHdTME-N_&gclid=Cj0KCQjw77bPBhC_ARIsAGAjjV__OYWJem6nMUQDDGz_jDg7IXSbKWo70zbtAHVVRiAm3xnf3jFRpMUaAnPMEALw_wcB.
Acesso em 26/04/2026.
[6] https://www.instasgram.com/reel/DH67w1FPGBi/?hl=pt.
Acesso em 26/04/2026.
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